sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Farinha Pensal com Cacau



Há coisas, lugares, livros, comidas, que não se podem revisitar. Ou mesmo pessoas - Sónia, querida, eu sei que estava apaixonado por ti aos 10 anos, e que as minhas definições genéticas me impeliam para o teu cabelo loiro e olhos azuis, e que esperava pelo dia em que, finalmente, jogássemos ao bate-pé. Mas vi-te há dois anos (tu não me viste) e, para ser sincero, já não me importo que gostasses mais do miúdo de olhos verdes que dava mortais da prancha mais alta da piscina.

O mesmo se passa com a Farinha Pensal com Cacau. Ou com Axl Rose. Ou com a religião católica. Mas ontem, no supermercado, revisitei o passado e uma pulsão infantil: Farinha Pensal com Cacau, que me fazia salivar, e aqui não estou a usar uma figura de estilo. Eu salivava. No entanto, se não fosse consumida em 3 minutos, a papa transformava-se em argamassa, ou, como defendia um dos meus irmãos, 'vomitado de gato'. Ontem, pensei comprar um pacote.

Axl Rose vai, por fim, lançar o seu álbum Chinese Democracy. No início do anos 90, estive no Estádio de Alvalade, esmagado entre temperaturas de banho turco, gajos a xutar heroína, e bocados de relva arremessados para o palco. Com 14 anos, eu gostava dos Guns N' Roses. E ir a esse concerto foi talvez um dos meus primeiros gestos de livre arbítrio que implicaram confronto com a autoridade(o meu pai). Deixaram-me ir. Escoltado pelo meu irmão mais velho.

Passei alguns anos num colégio católico. Nenhum trauma. Muita pancadaria, as melhores amizades, muitas formas de contornar a disciplina, e a certeza de que a liberdade e a afirmação pessoal me interessam muito mais do que a ordem colectiva da Igreja, o medo, o respeitinho, o receio de que, se nos masturbamos, Jesus se zanga e nos tira o direito a uma nuvem e uma harpa.

Parece agora que a minha família quer batizar um dos meus sobrinhos. Convidaram-me para padrinho. Para quê? Para um almoço e fotografias num álbum? Para que o menino esteja protegido do demónio? Que tal gastarem esse dinheiro em lições de inglês? Ou em legos? Ou em aulas de karaté? Qualquer coisa que lhe seja mais útil que essa espécie de cartão de membro do country club de Jesus, com direito a bar aberto de culpa, e um buffet de preconceitos bíblicos.

Em pequenos formatam-nos com programas que já foram recebidos da geração anterior. Querem que sejamos cópias das cópias. Sem questões, sem dúvidas. Batiza-se porque sim - mais uma convenção, é melhor assim, não vá acontecer alguma desgraça.

Por isso, ando a desprogramar-me há anos. E se o meu sobrinho corre o risco de algum tipo de formatação, que seja ao menos esse impulso condicionado da Farinha Pensal com Cacau. Ou a música rachada de um Axl agora gordo, de trancinhas, para sempre adiado nas suas ambições de fazer uma obra prima, mas que em tempos me punha aos pulos no sofá da sala quando gritava:

'And when you're high you never
Ever want to come down, so down, so down, so down, Yeah!

5 comentários:

Babe disse...

Eu fiz-me baptizar quando tinha quinze anos. Família comunista resignada, a Marta tinha feito o mesmo há uns anos.
Levava um vestido preto, decote até à China, o padre a ficar verde, o meu irmão a balir quando eu passei a ser mais uma das ovelhas do rebanho. A Julieta, a minha melhor amiga, chegou só para o almoço - ressaca da noite da Ericeira.
Na altura, fazia sentido a formatação.

PO disse...

Boa ideia o blog!

E olha que a fotografia dos baptizados resiste sempre aos tempos. «Olha o baptizado do Hugo!» Eu baptizei os meus filhos para agradar a minha mãe (ela foi logo cravada para madrinha porque era ela que o queria) e avó, a minha sogra e toda a gente. Ficou toda a gente contente. Uma amiga fez o mesmo e convidou-me para madrinha porque eu pensava como ela. Ok, aqui ficaram as fotografias (e duas mesas cheias de comida numa casa de campo na Margem Sul) e um pequeno rombo na carteira... além de uma leve sensação de lhe dever mais e melhores presentes pelas épocas habituais por ser... madrinha. Conclusão: é mais giro quando os padrinhos acreditam mesmo na coisa...

encapuzado extrovertido disse...

penso exactamente dessa forma, relativamente ao conceito da "programação" a qe te referes.

é incrível o que nos estão a fazer há gerações e gerações.

é tempo de formatar o disco rígido e actualizar o Sistema operativo.

Provavelmente vai ter de ser um salto grande de algumas versões...

raspberry stain disse...

eu fui baptizada em conjunto com o meu irmao e primos. tinhamos idades diferentes, eu, o frederico e a ana 6, o meu irmao andre e a margarida eram bebes. desse dia lembro-me dos vestidos cor de rosa, das fotos na igreja e ca fora, de segurar o meu irmao bebe ao colo. nao fiquei traumatizada porque tudo aquilo pouco mais significava do que uma enorme festa de familia e a minha educacao religiosa ficou-se por ai. nao houve ca primeira comunhao, nem crisma e das aulas de religiao e moral no colegio lembro-me de mais daquelas a que nao fui. do baptizado guardo as fotos, que por acaso foram tiradas por um fortografo da AP que a minha tia namorava na altura. belas fotos, portanto.

and that's pretty much it. hoje em dia vou aos dos outros _ baptizados that is _ mas nao faco tencoes de baptizar ninguem se a responsabilidade for minha,

Tunguana disse...

«¡Será posible! ¡Este viejo santo en su bosque no ha oído todavía nada de que Dios ha muerto!».(Asi habló Zaratustra-F.Nietzsche)


La autosuperación de moral por veracidad, la autosuperación del moralista en su antítesis, es lo que significa en mi boca el nombre Zaratustra. ( Ecce Homo, F.Nietzsche)


Amigo acho que ja lhe resolvi o problema e assim: vaya Ud al bautizo, no le compre nada a su sobrino,guarde ese dinero,disfrute, coma bien ( no haga sentir mal a sus anfitriones) luego cuando el niño cumpla 20 años, con el dinero que guardo Ud, comprele esos dos libros... y el entendera, y si no entiende....... entao "let it be" ( é fino o ingles, nao é?)